Alpentour Trophy nos Alpes a baixo de zero!

4 dias de prova em condições das mais adversas, neve, temperaturas negativas e chuva por 276 km de trilhas muito técnicas e 8700 m de escaladas, atingindo os 1800m de altitude.

Enquanto aguardava o embarque no vôo da TAP para Lisboa no aeroporto de Guarulhos pensava em meu regresso aos Alpes, minha primeira Ultra maratona foi em 2003 da Alemanha para Itália cruzando boas partes dos Alpes, a Transalp Challenge, experiência essa que deu inicio a tudo e me motivou a fazer provas deste tipo por todo mundo, mas esses primeiros dias de pedal nos Alpes nunca mais esqueci a Meca do Mountain Bike e a adrenalina dos locais, torcedores e equipes de apoio espalhados pelos mais diversos locais do percurso só se pode sentir na Europa, segundo esporte do continente depois do futebol.

Após uma parada em Lisboa para um pedal com amigos na Serra de Sintra seguimos para Munique, onde dirigimos ate a Áustria pais onde acontece a Alpentour Trophy com base na pequena e pacata cidade de Schaldming com seus 4500 habitantes, cravada em um vale com enormes montanhas com picos superiores a 3000 metros de altura.

Era 28 de junho eu e Adriana Nascimento montamos nossas Scott Spark RC e fomos fazer um reconhecimento local e soltar as pernas, fazia 7 graus mas com um céu azul que contratava com os picos brancos cobertos de neve, subimos um rio verde das águas geladas dos Alpes até chegarmos um campo verde com flores baixas, a cara dos Alpes, nesse momento senti que tinha voltado, logo avistamos uma placa de sinalização da prova e sem saber estávamos no local onde passarias por 3 vezes nos próximos dias para cruzar a linha de chegada.

Almoçamos e fomos encontrar Gerhard e Regina organizadores da prova que simpaticamente nos tinham convidado para este novo desafio, na área de inscrição já se sentia o clima de prova, inúmeros carros de equipes, atletas famosos, campeões europeus, olímpicos e mundiais a atleta russa Tereza Hurikova numero 25 do rating mundial da UCI  entre tantos outros, fomos tomar um café para esquentar e cruzei com Karl Plat da Bulls vencedor da Cape Epic deste ano, tivemos primeiro contato nos Alpes em 2003 e dai em diante fomos nos cruzando pelas mais diversas provas e assim criando uma amizade através do esporte.

Já estávamos com os nossos numerais agora era descansar para na amanha seguinte ás 10 horas da manha comprar a primeira briga de 4 etapas com um total de 276 km e 8700 metros de ascensão nos Alpes,com descidas bem técnicas onde contaremos com o apoio das nossas Scott Spark RC, nem tudo que desce é fácil...

Finalmente tinha cegado o dia um, com 69 km e 2100 metros de ascensão, na largada não se via um atleta que não tivesse uniformizado talvez pela simples razão de neste vale ter 128 trilhas de MTB todas marcadas e sinalizadas, quem alinha em uma prova é realmente bikers que só competem, os apaixonados por MTB tem toda a infra estrutura necessária para pedalar sem ter que participar de provas, é ai se aplica a regra que quantidade não é qualidade, ao nosso redor tinha pouco mais de 500 atletas mas todos eles profissionais e semi profissionais.

Recebemos um grito de boa sorte da Andrea que estava para fotografar a Brasil Soul MTB neste evento e foi dado o tiro de largada pontualmente as 10 horas, na Cape Epic larga as 7 para fugir do calor aqui as 10 para fugir do frio, tática essa que não serviu de muito?

Nos Alpes sem duvida a coisa não fica preta mas sim branca a cada metro que subimos a neve vai ficando mais perto, ao chegarmos nos 1650 m de altitude começou a nevar uma experiência inédita para os dois, o frio acho que nem é necessário descrever da para imaginar... mesmo com o tempo sido generoso com o sol e céu azul.

Largamos em ritmo de contra relógio atingindo 50 km por hora pela estrada que nos levava até a trilha, sem duvida o pelotão da Alpentour é composto 80% por atletas de elite, na categoria feminina eram 25 atletas e nos homens 75 com Lakata campeão europeu de maratona, Karl Plat campeão da Cape Epic 2009, Bart Brentjens campeão mundial e olímpico uma lenda uma do MTB Mundial acompanhado de toda sua equipe e por ai vai a lista, esses atletas semana passada tinham participado de uma outra prova de quatro dias imagem o volume de prova destas feras.

A pista foi algo fora de serie, algo surreal para nós vindos do Brasil acostumados ao nosso relevo, após o sprint da largada já começamos uma escala com 22 km de 800 m de altitude para 1650 m onde a neve estava presente e começou a nevar, descidas muito técnicas e algumas fora do normal como uma pista de Ski e single track perfeitos foram algumas das emoções entre uma escalada e outra, a segunda parede veio com 50k de prova, começou com 800 m de altitude e em 3 km chegamos a 1200 m de altitude com seções de 14 graus de inclinação, cruzamos a linha de chegada literalmente descendo uma pista de Downwill molhada pela chuva que começou nos últimos cinco quilômetros, após 70 km e 2300 m de ascensão.

A Adriana estava estreando sua Scott Spark RC não podia ser em um local melhor para estrear esta maquina incrível que sem divida alguma foi essencial nas descidas técnicas e íngremes de hoje, e nas subidas usando a trava era como estivesse de volta a sua Scale e nos singles com raízes a suspensão permitia ter mais velocidade.

Quando surgiu a placa de 5 km To Finish, estávamos naquele campo de flores que tínhamos conhecido no primeiro dia em Schladiming, entre um single track subindo e no fim a surpresa... uma pista de Downwill e como se isso não fosse o suficiente estava coberta de lama! algo surreal e lá vinha um pelotão de mountain bikers skiando montanha a baixa, foi assim que a Brasil Soul cruzou a linha de chegada em terceiro lugar na categoria mista dupla.


A organização servia um jantar para todos os atletas, com salada,massas,carnes e sobremesa de sorvete e frutas, o sorvete não estava mais precisando já tinha tido a minha dose de frio e gelo por hoje, mas uma boa massa repôs as calorias perdidas.


Áustria abaixo de zero, acordei olhei meu IPhone 3G Claro e o que vi após apertar o botão do Weather o visor cheio de neve e marcando -1... isso mesmo negativo lá fora.
Durante toda noite nevou e ao chegarmos na largada fomos informados que tinha sido cortado um trecho da segunda etapa por segurança sob ordens dos fiscais da UCI, porque a partir de 1600m de altitude a altura da neve tinha mais de 15 cm. Da distancia de 61k iniciais faríamos 54 km, e dos 23000 de ascensão acabamos por subir 2000 m, mas subir não foi a maior dificuldade da segunda etapa, chegando ao topo ficamos totalmente cercados por neve e as descidas muito técnicas exigiram dos nossos Pneus Continental Mountain King todo o grip, e nas descidas rápidas o frio foi algo além do imaginável batendo - 6 graus negativos, com as mãos e os pés se transformando em cubos de gelo e a sensibilidade das mãos desapareciam totalmente, as nossas manoplas Ergon neste momento acabavam de me mostrar mais um dos motivos porque foram desenvolvidas em esta parte do mundo e para maratonas a estabilidade que elas proporcionavam era essencial para poder ter uma condução segura, o gelo tornava muito difícil pilotar a bike pelos trechos técnicos. Em momentos como estes que o trabalho de equipe faz a diferença um incentivando, outro segurando e a equipe vai encontrando um equilibro que a faz diferenciar das outras. A meio da etapa estávamos em segundo lugar na nossa categoria mas acabamos por ficar em terceiro, vencidos não pelos nossos adversários da Áustria mas sim pelo frio, a Brasil Soul MTB literalmente gelou, e em uma parada para colocar mais roupas perdemos a nossa posição e não conseguimos mais alcançar a dupla concorrente.

Nas áreas de apoio tinha chá e bolo o que fazia todos continuar esta etapa inesquecível, mesmo para os locais, o piso pesado da chuva, os single tracks e as enormes paredes dos Alpes na Alpentour Trophy é algo que não chega nem perto do que podemos imaginar ou pensar no Brasil, uma etapa aqui, faz uma etapa da Cape Epic parecer uma prova Light, talvez tanta neve seja o motivo pelo qual a cidade de Schladming será a sede do campeonato mundial de Ski em 2010.

O vencedor da 2 etapa da Alpentour Trophy foi mais uma vez o campeão Europeu de Maratona Alba Lakata com 2 horas e 42 minutos e na Elite feminina Tereza Hurikova venceu pela segunda vez com 3 horas e 50 minutos e a Brasil Soul MTB terminou a 2 etapa em terceiro lugar com 5 horas de prova e muito mas muito frio.

Dois pensamentos sempre vem a cabeça nos últimos 5km, a Pizza quente e a radical descida pelo ultimo trecho da pista de Dowhill, que hoje estava totalmente enlameada, uma verdadeira passarela de tombos cinematográficos.

A terceira etapa com 52 km e 2100 metros de ascensão passando por 1600 metros de altitude foi um perfeito dia de MTB, um domingo inesquecível, sol, diversos tons de verde, o branco da neve e um céu azul que não tem igual, tudo isso com trilhas perfeitas e single tracks que só vemos em revistas e DVD's, mas não faltaram as famosas escaladas. A primeira com 20 km subindo até 1600 m de altitude, e a segunda podemos chamá-la de pura ignorância, 5 km até 1200 m com um grau de inclinação superior a 17%, trecho no qual foi necessário empurrar e que de tão íngreme fazia queimar o tendão de Aquiles, e nos restantes 4,8 km continuamos subindo de volantinho literalmente moendo de tanta força que tinha que ser aplicada para vencer esse trecho.

Na largada houve um acidente no pelotão em alta velocidade, onde dois bikers ficaram gravemente feridos, imaginem um pelotão compacto a mais de 40 km/h e de repente uma queda bem no meio, escapamos pela esquerda do pelotão e não sofremos nada.
A temperatura durante a prova foi agradável na casa dos 10 graus, mesmo no topo com neve estava agradável e as descidas não gelavam as mãos.

Durante toda etapa brigamos de novo pelo segundo lugar com a dupla local da KTM, mas fomos ultrapassados na ultima parte da etapa, porém o tempo entre as duas equipes diminuiu.
Competir e pedalar na Europa não tem igual, uma comparação seria o mesmo que uma dupla de europeus fosse jogar um futebol de praia no Rio de Janeiro com 35 graus e com toda a ginga e domínio de bola que só os Brasileiros possuem, é assim que me sinto aqui, todos são muito fortes e os percursos são muito exigentes, tanto no esforço como na técnica.

Por etapa o consumo é em media de 5000 calorias, com Power Gel e Power Bar consigo manter minhas forças.
Hoje na largada podemos ver uma belíssima coleção de bikes antigas, após a nossa largada teve uma prova de bike clássicas, durante a Alpentour Trophy acontecem outros eventos durante os quatro dias, prova four X, Downwill, Classic e prova para paraplégicos em bikes de 3 rodas é MTB Festival Schladming.
Na quarta e ultima etapa se juntou ao pelotão da Alpentour Trophy os atletas que participarão do campeonato nacional de maratona Austríaco, o pelotão triplicará e eles farão 3 percursos um com 21 km, outro de 52 km e os elite fazem o nosso percurso, o mais longo e duro da Alpentour Trophy 72 km e 2950 m de ascensão, o que anima é saber que o sol pelo menos pela manhã estará nos acompanhando e obviamente a possibilidade de podermos subir ao pódio com as cores Luso Brasileiras nos Alpes.


O vencedor da 3 etapa da Alpentour Trophy foi o Italiano Tony Longo com 2 horas e 20 minutos e na Elite feminina Tereza Hurikova venceu pela terceira vez com 2 horas e 56 minutos, para terem uma idéia da velocidade destas maquinas humanas, a media de velocidade é de 22,3 km/h, a equipe que está liderando tem em sua equipe Mauro Bettin uma das maiores lendas do ciclismo Italiano. No pelotão de elite com 52 atletas, nenhum fez média menor que 18 km/h e a Tereza Hurikova atual numero 25 do ranking mundial feminino de MTB fez media de 17 km/h.


A quarta e ultima etapa do Alpentour Trophy teve 72 km e 2950 m de ascensão. A largada foi mais cedo que nos últimos 3 dias, ás 9 horas para a entrega de prêmios e o Nodle Party as 14 horas.
Esse foi o mais duro de todos, era uma parede após outra para escalar com inclinações absurdas, e como consolo belos single track entre uma subida e outra, nosso apoio sempre esteve presente a cada momento da Alpentour, super versátil, sendo motorista, fotografa, esses foram alguns dos papeis essenciais para este resultado que Andréa fez por nós durantes esse 4 dias,quando passamos no apoio sabíamos que tínhamos mais uma parede pela frente e a voz da Andrea gritando "vai Mario, vai Adriana, vocês estão bem" era uma dose de animo extra.

Quando passamos para a segunda volta sabíamos que tínhamos mais uma forte subida, cruzamos a linha de chegada sem valer e fomos para mais um volta enquanto os competidores da prova de 52 km já recebiam a bandeirada final, abastecemos e fomos para mais uma e ultima volta, saímos da cidade entramos numa trilha fizemos um curva fechada para a direita e o que nos esperava uma verdadeira parede de terra que não tem descrição o que era subir algo assim metade pedalavel o resto empurrando e como tinha de empurra era difícil demais vencer esta parte, feito continuamos até conseguirmos ver a famosa placa de 5km para o fim e ai o sorriso começou a aparecer em nossos rostos e para não acostumar mal não faltou a famosa descida de Downwill e lá em baixo nos espera a bandeirada e o pódio, uma sensação indescritível poder estar ali nos Alpes e obter uma conquista desse porte.

Participar deste tipo de provas em lugares como esse na Áustria é simplesmente sensacional e subir no pódio é claro que não tem palavras, inclusive tudo isso só é possível concretizar com o apoio de grandes empresas como a Claro e Tap que investem em nossa imagem e acreditam no potencial do MTB assim como todos nossos patrocinadores, apoiadores, amigos e familiares que sempre torcem e apóiam, o nosso equipamento e nossas bikes Scott Spark RC que passaram por estes 4 dias sem um único problema, nos dando toda performance necessária para atingirmos este resultado.

Sobre um belo sol fomos chamados para o pódio preenchendo a terceira posição que tinha gosto de primeiro, pois muitos outros desafio tinham sido vencidos antes de chegar ali, um terceiro lugar na categoria mista na Alpentour Trophy, após 4 dias de prova em condições das mais adversas como, neve, temperaturas negativas e chuva por 276 km de trilhas muito técnicas e 8700 m de escaladas com mais de 20 km, atingindo os 1800m de altitude, nenhum destes fatores abalou o espírito da equipe e a parceria funcionou mais uma vez a 100% obtendo um resultado além do esperado.

Recomendo a todos a Alpentour Trophy, uma experiência perfeita para quem quer se batizar em Ultramaratonas, uma cidade linda e com toda a infra-estrutura que é necessária para uma prova deste tipo, e para os pilotos mais experientes e só soltar os freios e usar toda, mas toda a experiência que tem como piloto, uma verdadeira prova de MTB para todos os níveis em um dos lugares mais belos do mundo para a pratica do Mountain Bike.

Agora sentado aqui na poltrona do vôo da TAP com destino a São Paulo já estou pensando na estratégia para as 24 horas de Lisboa de MTB daqui a 15 dias em Lisboa.


Mario Roma
“Primeiro biker a levar a Bandeira do Brasil nas maiores Ultra maratonas de Mountain Bike do Mundo, 2003 na Transalp 600 km 21 000m subida (Alemanha para a Itália), Cape Epic 2005/ 2007 900 km 16 000 m subida (Travessia da África do Sul), TransRockies Canadá 700km 14 00m subida, 24 Horas Solo MTB USA,assim como presente nas maiores provas Brasileiras de MTB, (Campeão Paulista máster amador 2004 e Vice 2005 de Maratona MTB) Cerapio 410 km de Fortaleza a Teresina e Extra Distance 800 km Solo com 31 horas de pedal interrupto, competidor extremamente consistente em 2006 participou de 10 provas nacionais e conquistou 10 pódios”







 
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